Quinta-feira Gorda. Tlusty Czwartek

 

Quinta-feira Gorda. A festa internacional do sonho

 Polónia
 

 

Fofo, leve, com uma compota de rosa com uma consistência estaladiça nos dentes. Hoje é Quinta-Feira Gorda – o dia quando na Polónia se come muitos sonhos.

Como diz a lenda, os sonhos pela primeira vez foram preparados por uma austríaca, a senhora Krapf, para alimentar os defensores de Viena atacada pelos turcos no ano 1683. Mas não eram as bolinhas fofas e doces, mas uns pedaços de bolo de pão, fritos na banha e recheados de toucinho. Juntamente com as tropas do rei João III Sobieski que voltava de batalha de Viena, os sonhos chegaram a Polónia. Mas só no século XVIII que se transformaram nas delícias.

Jędrzej Kitowicz na „Descrição dos hábitos e costumes durante o reinado de Augusto III” escrevia: Se acertar no olho com um sonho antiquado, podia deixá-lo azul, hoje o sonho é tão fofo, tão leve, que depois de amassado na mão, espalha-se e volta ao seu volume, e o vento conseguia tirá-lo da bandeja.

Tradicionalmente, come-se os bolos na chamada Quinta-feira Gorda, ou seja na última quinta-feira antes do início de Quaresma. O dia é chamado às vezes também de Carnaval e é quando a tradição admite que se coma sem limite. Os polacos tratam esta regra muito a sério – no nosso país na Quinta-feira Gorda comemos até 100 milhões de sonhos!



Contemporaneamente os sonhos são feitos de farinha de trigo e de fermento e recheados com a compota de rosas ou com pétalas de rosas com açúcar. As pétalas são populares na região de Małopolska, para onde vieram dos países árabes. Há também sonhos recheados com as frutas, pudim ou geléia. O recheio é acresentado manualmente antes ou depois de fritar.

O que pode ser mais pesado na preparação dos sonhos é a recolha das pétalas de rosa.  A recolha pode ser feita apenas em Maio, tarde à noite e antes da madrugada. As pétalas durante a noite são  firmes e absorvem orvalho, mas ficam murchas quando o sol começa a esquentar. Assim que precisam de ser recolhidas antes do nascer do sol e depois, durante 12 horas, transformadas na compota ou misturadas cruas com o açúcar. A compota tradicionalmente precisa ser frita durante três dias.

Uma questão litigiosa é uma característica barra branca visível nos sonhos produzidos em massa. Łukasz Blikle, o filho do mais famoso confeiteiro na Polónia, escreve: „Entre os confeiteiros existem duas posições referentes ao fato se o sonho devia ter esta barra ou não.  Os nossos sonhos nunca tinham tal barra, porque achamos que o sonho devia ter uma superfície uniforme, frita e quaisquer “manchas” não são admitidas”.  Na mais antiga foto dos sonhos de Blikle do ano 1935 notamos que realmente não se vê nenhuma barra.

 

Com a barra ou sem, os sonhos são bolos bastante pesados, porque tradicionalmente são fritos na banha ou modernamente no óleo na profunda gordura. Depois de fritar e resfriar coloca-se o açúcar de confeiteiro ou derrama uma cobertura aguada e adorna com a casca de laranja cristalizada.

Diz-se que se na Quinta-feira Gorda não comermos nem um sonho, então durante  o ano inteiro nada vai dar certo. Mas se calhar é apenas uma conspiração dos confeiteiros.

Monika Kucia

Monika Kucia – jornalista culinária, autora de „Cuisine PL”, uma publicação que promove a gastronomia polaca durante a presidência da Polónia na UE. Autora, juntamente com Kurt Scheller do livro „Cozinha polaca que não conhecem”. Publica regularmente, entre outros, nas revistas „Traveler”, „Weranda Country”, „Food Service”, „Ona & Styl” e „Kaleidoscope”.

OS EXCELENTES BOLOS QUEIMADOS

„Querendo ter os sonhos para, por exemplo, às nove da noite, é preciso arrancar com o trabalho às duas. Uma metade de quarto de farinha queimar com uma metade de quarta de leite fervente, bater sem parar, e quando esfriar misturar com 15 gemas, batidas com a metade de massa de açúcar, derramar quatro lotes de fermentos, ralados num quarto do leite, bater a espuma de dez calaras de ovo, pôr o bolo e deixar assim até crescer. Quando já crescer bem, acrescentar o quarto de farinha tendo cuidado para que o bolo seja livre que nem para o pastel, colocar sal e depende de que gosta para o cheiro, ou seja, a casca de limão, noz-moscada ou duas batidas amêndoas amargas, e quando já estão bem feitas, acrescentar um quarto de libra de manteiga jovem e misturar por cerca de uma hora, até o momento quando se separar da mão ou da colher, pôr a farinha e deixar para que cresça na temperatura de 25 graus de Celsius. Tomar conta para que o bolo não cresça demais. Quando o bolo começar a crescer, fazer logo os sonhos, sem rolar e sem esticar, apenas pôr na tábua, tirar o pedaço de bolo que precisa para um sonho, colocar as compotas de ginjas separadas do xarope no dia anterior, cortar com o pequeno vaso de cerveja e colocar na peneira, fazendo tudo na temperatura de 25 graus de Ceslius, se está frio na cozinha, guardar a tábua em cima de um tronco naturalmente quente com um pequeno lume aceso. Ao fazer todos os sonhos, deixá-los na peneira, sempre no quente para que cresçam bem, só então esquentar a banha na panela funda, acrescentar um copo de álcool puro para tirar o cheiro de banha, e quando provado com o pedaço de bolo a gordura ferver e assobiar, começar a colocar 4 e não mais sonhos e fechando a placa da cozinha, fritar no lume pequeno. Na hora de fritar virar com o garfo para o outro lado. A gordura tem de estar muito quente,  e o lume pequeno para que o sonho tenha tempo e possibilidade de crescer, então dobra-se o seu volume e a delicadeza, os sonhos são iguais, fofos e grandes. Se o lume for forte demais, os sonhos ficam logo vermelhos, não crescem na panela e ficam murchos. Retirar com uma colher de colador e logo colocar o açúcar com baunilha (...). Desta proporção devem ter 35 até 40 sonhos”.

A receita vem do livro „Cozinha polaca nas receitas de Lucyna Ćwierczakiewiczowa”

fonte:Portal Oficial de Promoção da Republica da Polonia